{"id":10000,"date":"2025-08-25T11:55:41","date_gmt":"2025-08-25T14:55:41","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetadoabranches.com\/?p=10000"},"modified":"2025-08-25T11:55:41","modified_gmt":"2025-08-25T14:55:41","slug":"em-1825-curitiba-se-contou-12-mil-habitantes-poucos-recursos-e-vida-provinciana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetadoabranches.com\/index.php\/2025\/08\/25\/em-1825-curitiba-se-contou-12-mil-habitantes-poucos-recursos-e-vida-provinciana\/","title":{"rendered":"Em 1825 Curitiba se contou: 12 mil habitantes, poucos recursos e vida provinciana"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_10001\" aria-describedby=\"caption-attachment-10001\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10001\" src=\"https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800.jpg 700w, https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10001\" class=\"wp-caption-text\">Registro visual mais antigo conhecido da cidade de Curitiba \u00e9 o desenho de Jean-Baptiste Debret, que retrata a cidade vista do Alto S\u00e3o Francisco, incluindo a constru\u00e7\u00e3o da Igreja de S\u00e3o Francisco de Paula.<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 200 anos, Curitiba foi contar os seus. Ouvidores e p\u00e1rocos bateram de porta em porta por toda a Vila de Curitiba, incluindo as freguesias de S\u00e3o Jos\u00e9, Palmeira, Campo Largo, Igua\u00e7u (Tindiquera) e Votuverava. Eles questionavam os donos das casas sobre sexo, idade, cor e ocupa\u00e7\u00e3o social dos moradores. Tamb\u00e9m eram aferidas quest\u00f5es sobre casamentos, nascimentos e \u00f3bitos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Como resultado, as autoridades da cidade elaboraram o \u201cMapa dos Habitantes do Corpo de Ordenan\u00e7as da Vila de Curitiba e seu Distrito de 1825\u201d. O documento mostrava que a Vila de Curitiba tinha ent\u00e3o 12.514 habitantes, pouco mais que a popula\u00e7\u00e3o atual das Merc\u00eas. Esses moradores se dividiam entre o pequeno conglomerado urbano, nas proximidades da Pra\u00e7a Tiradentes, onde a cidade nasceu, e os distritos, que hoje correspondem a munic\u00edpios como S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, Arauc\u00e1ria e Rio Branco do Sul.<\/p>\n<h3>Jos\u00e9s e Marias<\/h3>\n<p>Inserida no sistema escravagista que vigorava no Brasil, a Vila de Curitiba tinha ent\u00e3o 1.578 escravizados, 12,6% da popula\u00e7\u00e3o. O n\u00famero era inferior ao registrado em outras cidades brasileiras. Estima-se, por exemplo, que no Rio de Janeiro, capital do Imp\u00e9rio, o percentual de escravizados chegava a 40% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre a popula\u00e7\u00e3o livre de Curitiba, havia mais mulheres (5.806) do que homens (5.129) e predominava a presen\u00e7a de jovens. Cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o (6.467 pessoas) tinha entre 0 e 19 anos &#8211; de acordo censo de 2022, atualmente s\u00e3o 22,5% nessa faixa et\u00e1ria. Apenas 4% (436 pessoas) tinham mais de 60 anos &#8211; hoje representam 18,13%.&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Os nomes masculinos mais comuns na Curitiba daquela \u00e9poca eram Manuel, Jos\u00e9, Jo\u00e3o e Francisco. Entre as mulheres, Maria era o nome predominante, seguido por Ana.<\/p><\/blockquote>\n<p>Dez anos antes, em 1815, uma pesquisa semelhante foi realizada na cidade. Imprecis\u00f5es estat\u00edsticas \u00e0 parte, a proximidade dos levantamentos permite comparar os n\u00fameros e entender os rumos que Curitiba tomava.&nbsp;<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o livre havia crescido, passando de 7.550 para 10.936 pessoas. A popula\u00e7\u00e3o escravizada tamb\u00e9m aumentou levemente, de 1.512 para 1.578, embora sua participa\u00e7\u00e3o no total de moradores da cidade tenha diminu\u00eddo. Essa queda percentual de escravizados seria constante e gradativa ao longo do s\u00e9culo 19, resultado, segundo historiadores, da atra\u00e7\u00e3o exercida por fazendas de caf\u00e9 mais lucrativas em outros locais, como o interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h3>Humilde e provinciana<\/h3>\n<p>Apesar do crescimento da popula\u00e7\u00e3o, Curitiba era ainda uma cidade muito humilde e provinciana, mesmo para os padr\u00f5es da \u00e9poca.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de vida dos curitibanos n\u00e3o eram f\u00e1ceis, conforme descreve Renato Mocellin, em \u201cHist\u00f3ria Concisa de Curitiba\u201d: \u201cEm 1806 uma epidemia de \u2018c\u00e3imbra de sangue\u2019 (diarreia) assolou a vila. No ano de 1809, o inverno foi rigoroso provocando uma grande escassez de v\u00edveres; al\u00e9m da subnutri\u00e7\u00e3o, uma epidemia de \u2018chaga sarnosa\u2019 atingiu os curitibanos. Em 1818, a var\u00edola fez muitas v\u00edtimas, o mesmo acontecendo em 1831 e em 1838\u201d.<\/p>\n<p>Os relatos da viagem do naturalista e explorador franc\u00eas Saint-Hilaire, que passou pela Curitiba em 1820, ilustram bem o cen\u00e1rio socioecon\u00f4mico da \u00e9poca.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEm Curitiba e nos seus arredores h\u00e1 um n\u00famero muito pequeno de pessoas abastadas. Eu vi o interior das principais casa da cidade, e posso afirmar que nas outras cabe\u00e7as de comarcas ou mesmo de termos n\u00e3o havia ent\u00e3o nenhuma casa pertencente \u00e0s pessoas importante do lugar que fosse t\u00e3o pouco arrumada assim\u201d, relata Saint-Hilaire em seu \u201cViagem pela Comarca de Curitiba\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A falta de dinheiro parecia generalizada. Em \u201cTerra e Gente do Paran\u00e1\u201d, o historiador Rom\u00e1rio Martins lembra que entre 1821 e 1825 a C\u00e2mara Municipal, que na \u00e9poca acumulava tamb\u00e9m fun\u00e7\u00f5es administrativas na cidade, sequer conseguia pagar o sal\u00e1rio de um mestre r\u00e9gio das primeiras letras. O mestre r\u00e9gio era uma esp\u00e9cie de professor prim\u00e1rio, respons\u00e1vel pela instru\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Registros hist\u00f3ricos da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.curitiba.pr.leg.br\/\">C\u00e2mara Municipal&nbsp;<\/a>mostram que, em mar\u00e7o de 1825, a C\u00e2mara solicitava parecer da Junta da Fazenda sobre \u201crendeiros\u201d que se negavam a pagar impostos. Os rendeiros eram pessoas que usavam terras arrendadas. A pr\u00f3pria C\u00e2mara n\u00e3o conseguia construir uma sede pr\u00f3pria e utilizava pr\u00e9dios alugados.<\/p>\n<h3>H\u00e1 esperan\u00e7a<\/h3>\n<p>Saint-Hilaire, por\u00e9m, via esperan\u00e7a para os moradores da Vila. \u201cCuritiba podia, pois, ser considerada como a \u00fanica cidade no interior que, a partir de S\u00e3o Paulo, mantinha contato frequente e direto com o litoral; em consequ\u00eancia, sua situa\u00e7\u00e3o era extremamente favor\u00e1vel ao com\u00e9rcio, e n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que ela se tornaria uma cidade muito florescente se a estrada que atravessa a serra de Paranagu\u00e1 n\u00e3o fosse t\u00e3o acidentada.\u201d<\/p>\n<p>O explorador franc\u00eas tamb\u00e9m acertou ao prever que o mate, cultivado na \u00e9poca \u201ccom pouco cuidado\u201d, iniciaria, nas d\u00e9cadas, seguintes um ciclo de riqueza para a cidade, tornando a Vila um centro econ\u00f4mico regional. &nbsp;<\/p>\n<h3>Mapas de habitantes e Listas Normativas eram instrumento de contagem do Brasil Col\u00f4nia<\/h3>\n<p>Em sua&nbsp;<a href=\"https:\/\/acervodigital.ufpr.br\/handle\/1884\/24630\">disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u201cAspectos demogr\u00e1ficos de Curitiba: 1801-1850\u201d<\/a>, a historiadora Elvira Mari Kubo afirma que dentre os recenseamentos realizados para a Capitania e, posteriormente, para a Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, da qual Curitiba fazia parte, os mais detalhados s\u00e3o as Listas Normativas de Habitantes, existentes a partir de 1765.<\/p>\n<p>\u201cEssas listas eram levantadas anualmente, com finalidade militar e fiscal, pelos capit\u00e3es-mores das vilas, com o aux\u00edlio de ouvidores e p\u00e1rocos. A popula\u00e7\u00e3o recenseada por fogos (domic\u00edlios) era registrada em Mapas de Habitantes pelas Companhias de Ordenan\u00e7as, e posteriormente eram elaborados mapas recapitulativos por munic\u00edpio e por capitania, sendo que o mapa desta \u00faltima era duplicado para remessa a Portugal\u201d, afirma Elvira.<\/p>\n<p>A metodologia perduraria nos primeiros anos p\u00f3s-independ\u00eancia &#8212; o primeiro censo oficial do Brasil Imp\u00e9rio s\u00f3 seria realizado quase 50 anos mais tarde, por meio da Diretoria Geral de Estat\u00edstica (DGE). Neste Censo, de 1872, a ent\u00e3o Comarca de Curitiba, que englobava Votuverava, Arraial Queimado e S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, tinha uma popula\u00e7\u00e3o de 42.175 habitantes, dos quais 2.597 escravizados (6,2%). A da Bahia, tinha 129.109 habitantes, enquanto Porto Alegre, capital da Prov\u00edncia do Rio Grande do Sul, possu\u00eda 43.998 habitantes.&nbsp;<\/p>\n<p><i>Texto: Guilherme Voitch<\/i><br \/>\n<i>Secretaria Municipal da Comunica\u00e7\u00e3o Social (Secom)<\/i><\/p>\n<figure id=\"attachment_10002\" aria-describedby=\"caption-attachment-10002\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10002\" src=\"https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-foto-2.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-foto-2.png 800w, https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-foto-2-300x300.png 300w, https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-foto-2-150x150.png 150w, https:\/\/gazetadoabranches.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Curitiba-anos-1800-foto-2-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10002\" class=\"wp-caption-text\">Mapa do n\u00facleo urbano da cidade entre 1830 e 1850. Foto: Boletim do Arquivo do Paran\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 200 anos, Curitiba foi contar os seus. Ouvidores e p\u00e1rocos bateram de porta em porta por toda a Vila de Curitiba, incluindo as freguesias de S\u00e3o Jos\u00e9, Palmeira, Campo Largo, Igua\u00e7u (Tindiquera) e Votuverava. Eles questionavam os donos das casas sobre sexo, idade, cor e ocupa\u00e7\u00e3o social dos moradores. 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